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Timor: “praia presa, adiantada no mar, no longe“

Citação de Rui Cinatti inspira Dinora Ferreira na tradução escrita das suas memórias de três anos de ensino em Timor-Leste

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Dinora Ferreira
  • Professora de Português
    • Tradutora de Francês/Português no Chapitô – Escola de Artes Circenses (1987-88)
    • Externato Chile – Lisboa (1988-89)
    • Escola Secundária Pedro Nunes – Lisboa (1990-92)
    • Escola Secundária de Palmela (1992-2012)
    • Escola Portuguesa Ruy Cinatti em Timor-Leste (2012-15)
      • Adjunta da diretora da Escola Portuguesa Ruy Cinatti em Timor-Leste
    • Escola Secundária de Palmela (2015-26)

Escrever sobre Timor é prolongar a viagem. É voltar aos passos que dei, repeti-los… As recordações são muito vivas ainda, desenrolam-se na minha memória como fios de uma meada que não tem fim.

Cheguei a Timor Leste em setembro de 2012 para trabalhar na direção da Escola Portuguesa de Díli, mais tarde designada Escola Portuguesa Ruy Cinatti, em homenagem ao engenheiro agrónomo e poeta, que muito escreveu sobre Timor, a ilha onde viveu, trabalhou e que lhe serviu de motivo poético. A escola existe desde 2002, ao abrigo de um protocolo com o Estado Português, recebendo crianças e jovens de todos os ciclos de ensino, desde o pré-escolar até ao ensino secundário.

Em Díli, a escola portuguesa distingue-se pela arquitetura e organização e, por essa razão, funcionava, também, como uma espécie de centro cultural onde decorriam eventos de todo o tipo – desde conferências e feiras do livro a receções a políticos e embaixadores. O edifício é simples, mas bonito. Os espaços exteriores estão muito bem cuidados, cheios de flores com nomes engraçados que não sei reproduzir. No interior, as salas estão bem equipadas para acolher uma população estudantil constituída por 90% de alunos timorenses, seguindo-se os de nacionalidade portuguesa e brasileira.

Um longe de 16 mil quilómetros

Embora esteja a 16000 quilómetros de distância, a Escola Portuguesa é em quase tudo idêntica às nossas escolas: seguimos os mesmos programas, metas, aprendizagens e perfis. Os alunos são sujeitos à mesma avaliação externa, com o constrangimento de terem de realizar as provas às 22 horas, quando cá se realizam às 14h, devido ao fuso horário. A grande diferença é que, embora o Português seja a língua oficial de Timor-Leste, nos corredores da escola, praticamente só se ouve falar tétum. Esta língua nacional e co-oficial de Timor é muito simples e com poucas regras gramaticais. Não existem os verbos “ser” ou “estar”. Não há conjugações no passado ou futuro, nem masculino e feminino. Uma palavra pode significar três ou quatro coisas diferentes. Já as metáforas do tétum são encantadoras! Por exemplo: “praia” diz-se “tassi ibun”, que quer dizer “boca do mar”; “mulher grávida” diz-se “isin rua”, ou seja, “duas vidas”; “dedos das mãos”, “liman fuan”, que se traduz por “flores das mãos”…

Na escola, uma das nossas maiores batalhas diárias era tentar fazer com que os alunos falassem Português, dentro e fora da sala de aula. Nos corredores, nos intervalos, só se ouvia falar Tétum, embora fosse “proibido” fazê-lo. A verdade é que, embora ralhássemos, todos compreendíamos que ninguém aprende uma língua por decreto.

Para as famílias timorenses, colocar os filhos na escola portuguesa representa, ao mesmo tempo, um encargo financeiro e uma afirmação social. Expectavelmente, é um investimento que trará frutos, uma vez que serão estes jovens (muitos deles prosseguem estudos em Portugal) que ocuparão cargos importantes na governação de um país em que está tudo por fazer e mais de cinquenta por cento da população tem menos de 15 anos. Esta é uma das muitas perplexidades que sentimos em Timor, uma vez que, para o comum dos jovens timorenses, a perspetiva de futuro é muito pouco animadora. Não há indústrias (aliás, a revolução industrial não passou pelo país), o turismo é muito incipiente, os serviços são poucos…

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Curador Escolusas
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Assinatura editorial do Escolusas. Imagem de perfil obtida por IA.

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