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Viver todas as cores em Timor-Leste

Dinora Ferreira oferece novos relatos da sua prolongada vivência em Díli, a capital de todas as cores.

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(2) “Praia presa, adiantada no mar, no longe“ (Rui Cinatti)
Dinora Ferreira
  • Professora de Português
    • Tradutora de Francês/Português no Chapitô – Escola de Artes Circenses (1987-88)
    • Externato Chile – Lisboa (1988-89)
    • Escola Secundária Pedro Nunes – Lisboa (1990-92)
    • Escola Secundária de Palmela (1992-2012)
    • Escola Portuguesa Ruy Cinatti em Timor-Leste (2012-15)
      • Adjunta da diretora da Escola Portuguesa Ruy Cinatti em Timor-Leste
    • Escola Secundária de Palmela (2015-26)

Viver a aventura

Longe de casa e da família, desafiada, quase diariamente, a cumprir inúmeras e diferentes solicitações, posso afirmar que viver e trabalhar em Timor- Leste durante três anos foi uma das maiores aventuras da minha vida. Quase todos os dias, a surpresa e a descoberta. Muitas vezes, a dificuldade e o choque perante o país e as suas gentes.

Um dos aspetos a que mais me custou adaptar foi o clima. É que se morre de calor em Timor. Com a chegada da época das chuvas, a humidade sufoca-nos, esmaga-nos contra o chão, não nos deixa respirar. É quase como se tivéssemos engordado de repente e carregássemos um peso que não é o nosso. Não há estações do ano. Sabemos que, depois da época do ananás, se sucede a época da papaia e da manga… Deduzimos que estamos noutra «estação» pelos frutos que vemos à venda nas bancas dos pequenos mercados espalhados pela cidade, ou pela ausência ou omnipresença do verde nas montanhas.

Foto: Khairil Yusof, CC BY 4.0 via Wikimedia Commons

Na época das chuvas, chove invariavelmente ao fim do dia. A chuva tem uma intensidade incrível pelo que ficamos encharcados nos primeiros cinco segundos. É um espetáculo impressionante, parece que o céu abriu as comportas, o que provoca a alegria das crianças que gritam e saltam nos quintais ou pelas ruas, recebendo a chuva de chapa. Alguns rapazes jogam futebol no meio da estrada e fintam os carros e as motas com um virtuosismo invejável. Ninguém se abriga, saltam e gritam muito, adoram a chuva… Uma vez, uma professora do primeiro ciclo contou que um menino escreveu numa composição sobre a amizade: «Quando não estou com o meu amigo é como um dia sem chuva»…

Díli de todas as cores

Díli é uma cidade caótica, quase não há passeios e as ruas são debruadas por valas abertas, cheias de lixo, sobretudo garrafas de plástico, embalagens, chinelos, sacos, mas também troncos e paus arrastados pelas enxurradas causadas pela chuva intensa. Na grande avenida marginal, vemos muitas vezes homens acocorados à sombra das árvores em cujos ramos pendem peixes agrupados em «molhinhos» atados por fitas coloridas. São as «árvores peixeiras», uma espécie de mercado do peixe ao ar livre. Escusado será dizer que, com o calor implacável e a poluição provocada pelos carros que passam, a meio da manhã, os peixes perderam o brilho e ostentam cores que não são já as suas. Os timorenses parecem não se importar, compram-no mesmo assim…

Durante a semana, ao fim da tarde, as ruas da cidade enchem-se de crianças e jovens que saem das escolas e formam um colorido magnífico com as suas fardas aprumadas. Em Timor, é obrigatório o uso de uniforme, cada escola tem o seu e, à boa maneira asiática, quanto mais colorido melhor: azuis e verdes de todos os tons, vermelho e amarelo, muito amarelo… É um espetáculo bonito de se ver. Nas ruas feias e desarrumadas de Díli, repletas de cães escanzelados e crianças esfarrapadas, parece, de repente, haver uma ordem e uma organização trazidas por estas «manchas» de cor. Até nas escolas mais pobres as crianças e os jovens usam farda, que estimam com todo o cuidado. Alguns descalçam-se à saída da escola para poupar os sapatos e vão a pé para casa. Nos colégios para os mais afortunados, as fardas são mais discretas, à moda ocidental, e o calçado é de boa qualidade.

Em Timor-Leste, não há transportes públicos. Se nos quisermos deslocar, apanhamos um táxi (a maior parte são carros velhos, interiormente decorados com tecidos de cores berrantes) ou a «microlete». Este transporte público improvisado não é mais que uma carrinha Hiace adaptada, com bancos corridos de lado, onde as pessoas se amontoam de qualquer maneira para chegar ao seu destino. O custo da viagem é de 50 cêntimos e, não havendo campainha nem paragens, quando alguém quer parar, bate repetidamente com a moeda no varão metálico que atravessa a carrinha e a motorista encosta. É frequente vermos vários rapazes pendurados perigosamente nas portas da «microlete» para apanhar boleia sem pagar. Os acidentes são recorrentes, muitos com desfechos trágicos.

A fealdade da capital é, felizmente, compensada pela beleza do mar que a orla e que nos oferece, diariamente, um espetáculo extraordinário. É um mar cor de prata, às vezes. Outras, azul turquesa… É tão calmo e convidativo que quase nos faz esquecer que alberga a cobra-do-mar, o tubarão e o crocodilo. Este aparece com alguma frequência, ao entardecer, junto aos mangais, e ataca sobretudo pescadores. No entanto, o povo timorense tem um enorme respeito e admiração por este animal (chama-lhe «avô») e recusa-se a matá-lo pois é um animal sagrado, segundo uma lenda ancestral em que quase todos acreditam.

Há sempre pescadores nos seus «beiros» (barcos de pesca tradicionais feitos a partir da escavação de troncos de árvores) a recolher ou a lançar as redes e, na maré baixa, a apanhar caranguejos ou a procurar corais, grupos de crianças juntam-se à beira-mar. Têm sorrisos lindos e olhos grandes em corpos normalmente pequenos e miudinhos. Saramago disse uma vez que as crianças em Timor «só tinham olhos» e é bem verdade.

Timor-Leste não é Díli, embora tudo se passe na capital. Viajando por outras regiões do país, pude confirmar a beleza e o exotismo da ilha de Ataúro e do ilhéu de Jaco, sentir o perfume dos frutos nos pequenos mercados das aldeias, na montanha, observar as árvores que crescem na areia da praia e que servem de sombra a vacas e outros animais, apreciar a voluptuosidade das plantas e das cores tropicais, comovida a cada momento pela receção calorosa dos timorenses, sobretudo das crianças, sempre muitas crianças.

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Curador Escolusas
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Assinatura editorial do Escolusas. Imagem de perfil obtida por IA.

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