
ECOS no seu e-mail | Novidades do Escolusas
Gratuito

Diana Abrantes
Educadora de Infância na Escola Portuguesa de Díli
Grupo disciplinar: Pré-escolar
Escolas
Naturalidade: 1984, Lisboa (Portugal)

Há decisões que mudam uma vida inteira e que, no momento em que são tomadas, cabem num espaço muito pequeno de tempo — mas carregam uma imensidão de medo, coragem, receio e esperança.
Quando contei que ia deixar Portugal para viver em Timor-Leste com os meus dois filhos pequenos, muitas pessoas acharam que eu estava maluca. Algumas disseram-no em tom de brincadeira, outras com genuína preocupação. Afinal, estava prestes a atravessar o mundo, em plena pandemia, sozinha com duas crianças de 6 e 4 anos, rumo a um país que conhecia apenas pelas histórias e pelas pesquisas feitas à pressa. E, na verdade, houve momentos em que eu própria me perguntei se não seria uma loucura. Mas, por detrás do medo, havia uma certeza maior: a de que algumas oportunidades só passam uma vez na vida e que, por vezes, é preciso ter coragem para dizer sim ao desconhecido.
Tudo começou com uma vaga que surgiu quase por acaso, de um dia para o outro, na Escola Portuguesa de Díli. Sem grandes planos preparados, sem tempo para muitas certezas, aceitei o desafio. Em plena pandemia de Covid-19, fiz uma mala que não levava apenas roupa e objetos. Levava sonhos, dúvidas, expectativas e uma enorme vontade de proporcionar uma vida melhor aos meus dois filhos, então com apenas 6 e 4 anos. Vim sozinha com eles para Timor-Leste, atravessando o mundo em direção ao desconhecido.
A chegada não trouxe logo o alívio da chegada. Pelo contrário. Assim que aterramos, fomos obrigados a cumprir 15 dias de quarentena, fechados dentro de uma casa. Tudo continuava distante, tudo continuava desconhecido. Era como se a vida tivesse ficado suspensa no tempo, enquanto o coração insistia em acelerar perante tantas perguntas sem resposta.
O primeiro mês foi muito difícil. Muito mais do que eu imaginava. A adaptação, a responsabilidade de estar sozinha com duas crianças tão pequenas, a distância da família, os novos hábitos, uma nova cultura e o desconhecido presente em cada pequeno detalhe exigiram uma força que nem eu sabia que tinha.
Mas nunca estive verdadeiramente sozinha. Tive sempre ao meu lado pessoas extraordinárias que me acolheram, ajudaram, orientaram e apoiaram nos momentos em que tudo parecia maior do que eu. Foram essas pessoas que tornaram a integração mais leve e que me fizeram sentir que, mesmo do outro lado do mundo, era possível encontrar uma nova família.
Foi também num desses primeiros tempos, ainda de adaptação ao novo país, que vivi um episódio que hoje recordo com algum humor, mas que na altura foi tudo menos leve. Um coco caiu-me literalmente na cabeça. O impacto foi tão forte que fiquei cerca de uma hora sem ver nem ouvir bem. Ali, no meio do inesperado, percebi de forma quase simbólica o quanto tudo naquele país podia ser imprevisível — e o quanto eu teria de aprender a viver com isso. Hoje conto esta história com um sorriso, mas na altura foi um daqueles momentos em que o corpo para… e a vida obriga a parar também.
A barreira linguística na escola foi, e continua a ser, um dos maiores desafios. Muitas crianças falam pouco português, o que exigiu de mim uma adaptação constante na forma de ensinar, comunicar e criar ligações. Talvez por isso este projecto tenha ganho ainda mais significado. Todos os dias procuro encontrar novas formas de tornar a língua portuguesa mais próxima, mais viva e mais acessível.
Foi aqui que comecei a reinventar-me.
Ao longo destes anos lancei-me em novas experiências profissionais, como dar aulas de hidroginástica, yoga e zumba infantil — formas diferentes de estar com crianças, de criar ligação, de continuar a educar através do corpo, do movimento e da alegria.
Em dezembro de 2023 iniciei um projeto que acabou por marcar profundamente este percurso. Em conjunto com o Nuno Murinello, da Crockfaek, comecei a dar forma a algo que durante muito tempo recusei por medo de sair da minha zona de conforto. O Nuno convidou-me várias vezes e eu fui sempre adiando. Até que percebi que crescer também é isto: avançar mesmo quando o medo continua presente.
Foi assim que nasceu o canal de YouTube Miminhos da Di, criado a partir da necessidade de existirem mais conteúdos em português de Portugal acessíveis às crianças e às famílias.
Hoje, com mais de 70 vídeos publicados e uma comunidade que continua a crescer, o projeto tem recebido um feedback extremamente positivo. Muitas famílias partilham connosco que os seus filhos estão a aprender português através dos conteúdos, o que nos emociona e motiva profundamente. O Nuno é quem faz a verdadeira magia acontecer nos bastidores, transformando ideias simples em vídeos cheios de criatividade, cor, imaginação e encanto. Juntos, procuramos criar conteúdos que educam, divertem e aproximam as crianças da língua portuguesa. De certa forma, sentimos que estamos também a contribuir para levar, valorizar e fortalecer a nossa língua além-fronteiras, criando pequenas pontes entre culturas através da educação, da brincadeira e do afeto.
Ao longo deste percurso fui sendo convidada para participar em diferentes iniciativas. Colaborei em atividades promovidas pela Embaixada de Portugal em Díli, no Natal e no Dia da Língua Portuguesa, através de propostas lúdicas e musicais dirigidas às crianças e às famílias. Participei também num podcast para o jornal Diligente e em duas entrevistas, para a LUSA e para a RTTL, sobre a importância da ludicidade na educação pré-escolar. Cada convite representou um reconhecimento do trabalho desenvolvido, mas também uma oportunidade para continuar a aprender e a crescer.
As crianças chamam-me muitas vezes “a professora feliz”, mas também “a professora dos abraços”. Os pais, carinhosamente, tratam-me por vezes como “a fada das crianças”. Recebo essas palavras com enorme gratidão, porque representam muito mais do que um elogio. Refletem a forma como procuro viver a educação: com alegria, proximidade, afeto e dedicação.

Os abraços, os sorrisos, as palavras de incentivo e os pequenos gestos do dia-a-dia têm um poder transformador que nenhum manual consegue substituir.
Acredito profundamente que não existe educação sem afeto. Antes de ensinar, é preciso acolher. Antes de aprender, uma criança precisa de se sentir segura, valorizada e amada. Os abraços, os sorrisos, as palavras de incentivo e os pequenos gestos do dia-a-dia têm um poder transformador que nenhum manual consegue substituir.
Acredito que o primeiro a entrar na escola, deve ser um professor feliz. Porque a forma como chegamos molda tudo aquilo que acontece depois. Um sorriso acolhe, tranquiliza, aproxima e abre portas para a aprendizagem.
Em Timor-Leste encontrei muito mais do que um destino profissional. Encontrei paz, tranquilidade e uma forma diferente de viver. Encontrei tempo para os meus filhos, tempo para mim e tempo para valorizar aquilo que realmente importa. Aqui aprendi a viver com mais presença, a apreciar as coisas simples e a perceber que a felicidade está nos momentos mais pequenos do dia-a-dia. E, quando menos esperava, encontrei também o amor. Talvez por isso Timor tenha passado a ser mais do que um lugar no mundo: tornou-se um lugar no coração. Porque viver com amor torna tudo mais bonito.
Aqui existe uma dimensão de vida mais simples e mais humana que me ajudou a reorganizar prioridades e a olhar para a educação — e para a própria vida — de uma forma diferente.
Também foi aqui que construí amizades verdadeiras, daquelas que sabemos que nos acompanharão para sempre. Pessoas que passaram a fazer parte da minha história e que estarão sempre presentes, independentemente da distância que nos separa.
Gosto profundamente de ser Educadora de Infância na Escola Portuguesa de Díli. Sinto-me privilegiada por poder fazer aquilo que amo todos os dias. E sinto-me igualmente grata por continuar a desafiar-me constantemente, sem me acomodar, sem deixar de procurar novas formas de crescer, aprender e contribuir.
Fui-me desafiando sempre. E continuo a fazê-lo.
Hoje, quando olho para trás, percebo que esta viagem não foi apenas uma mudança de país. Foi uma reconstrução de mim própria. Entre o medo inicial e a vida que fui construindo, ficou um caminho feito de aprendizagem, de pessoas extraordinárias, de projetos, de descobertas e de crescimento.
Seis anos depois, sei que a coragem não é a ausência de medo.
A coragem é fazer a mala na mesma.
É atravessar o mundo com dois filhos pela mão.
É recomeçar quando nada é familiar.
É aceitar desafios que nos assustam.
É acreditar quando ainda não temos certezas.
E talvez seja isso que levo desta experiência: algumas das melhores viagens da nossa vida começam exatamente no momento em que decidimos voar para além do medo.