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Por volta de 1996, decidi escrever ficção narrativa. Não foi daqui para aqui. Só estava farto de desconseguir de escrever poesia.
Só que esta minha vontade de escrever contos redundou numa grande desilusão. Compreendi que não sabia escrever logo nos primeiros dois contos. Tinha várias ideias e notas para os enredos e personagens e as imagens todas na cabeça, mas não conseguia comunicar isso no papel. Não foi nenhum leitor a avisar-me. Era eu próprio que ficava frustrado porque não conseguia materializar ou traduzir em palavras determinadas imagens que me eram mentalmente claras. Travei lutas corpo a corpo com a língua portuguesa.
A solução que encontrei para esta desilusão foi parar de escrever e dedicar-me ao estudo da escrita literária. Mas nos anos 90 não existiam em Maputo oficinas de escrita criativa ou de leitura, frequentes na Europa e na América. Também não tínhamos a Internet com os milhares de tutoriais, podcasts e manuais de instruções para tudo e mais alguma coisa.
Reflectindo hoje sobre o processo da minha produção literário, acho que caibo nestes versos do Caetano Veloso da canção Livro:
“Quase não tínhamos livros em casa/ E a cidade não tinha livraria/ Mas os livros que em nossa vida entraram/ São como a radiação de um corpo negro/ Apontando pra a expansão do Universo/ Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso/ E, sem dúvida, sobretudo o verso/ É o que pode lançar mundos no mundo.”
Ainda que no princípio o meu mundo estivesse preso na minha cabeça, fui percebendo mais tarde que a minha dificuldade era motivada, acima de tudo, pelo facto de o português não ser a minha língua materna. Pois, segundo estudiosos como Gilberto Matusse e Francisco Noa, são evidentes os contornos da problemática da língua literária, pelo facto de o escritor africano em geral ter de construir a sua língua literária axialmente a partir de uma língua natural alienígena.
A minha língua materna é o ronga, uma das línguas predominantes em Maputo. Quando aos 6 anos comecei a escola, não sabia falar português, tal como a maioria dos meus vizinhos e das crianças do meu bairro e também os cerca de 90% dos homens e mulheres do meu país. Em casa falávamos ronga ou changana, e só na escola o português. Infelizmente, o ensino não era bilingue. Mas, mais grave do que isso, é que as dezenas de línguas nacionais eram proibidas, no espaço escolar, de falar a sua língua materna o que porventura poderia permitir uma espécie de mediação ou negociação no processo de aprendizagem da nova língua – a língua portuguesa.
Pode-se depreender que a minha língua materna não foi desenvolvida porque desde cedo teve de dar lugar a uma outra que me era imposta, que devia ser conquistada a ferro e fogo – um troféu de guerra, como terá dito Pepetela. O ronga foi secundarizado e finalmente atrofiado. Mal leio e escrevo em ronga. Hoje todo o meu esquema de pensamento e, se quisermos, de existência, é em português. Eu sonho em português, aliás, já faz muito tempo que essa transição se deu.
Mas como então ter uma voz própria, ou criar um estilo teu se não dominas a língua na qual pretendes escrever? – Essa era a questão. Logo, o meu confronto com a língua portuguesa e a escrita literária, dadas as diversas circunstâncias, foi um processo totalmente pessoal e intuitivo e era feito, simultaneamente, na aquisição de ambas as competências: as linguísticas e as literárias. Portanto, também incluía questões à volta de ordem sintática, estrutural e discursiva. Mas o seu objecto não eram as gramáticas e prontuários e compêndios. Era a literatura propriamente dita – lia de tudo: americanos, europeus, africanos e, naturalmente, os moçambicanos.
Por isso mesmo, nos primeiros dez ou quinze anos eu não me importava nada de seguir os caminhos já começados por outros. A leitura é que me foi abrindo os caminhos para a escrita e proporcionou-me a oportunidade de colocar em jogo os conhecimentos construídos, comparando, contrastando, transformando e experimentando novos modos de construção.
Nalgum momento tentei privilegiar o meu próprio contexto sociocultural, dando ênfase à literatura moçambicana em particular, e à africana no geral, visto que partilhamos os mesmos universos e imaginários. Lembro-me que os primeiros contos que escrevi — “Feitiço”, “E tudo a chuva molhou”, “Amor Silvestre” —tinham uma carga telúrica mais forte.
Mas Moçambique é tradicionalmente dominado pela lírica e, nos anos 80 e 90, ressurge a ficção, mas com muito poucos autores. Por isso, havendo muito pouca produção de ficção literária nessa altura, tinha poucos exemplos a seguir na exploração desses universos e imaginários. Era como se tivesse eu que inventar a minha própria forma, o estilo e a linguagem. Por essa razão, a mim a influência não me angustiou nada. Assumi-a e incorporei-a, porque como refere Bakhtin “a língua passa a integrar a vida através de enunciados concretos (que a realizam); é igualmente através de enunciados concretos que a vida entra na língua”.
Como explica Gilberto Matusse, os autores moçambicanos assumiram modelos de subversão dos cânones. Portanto, a estratégia adoptada na literatura moçambicana foi a oralização da estrutura e incorporação no texto em português de elementos provenientes do imaginário das culturas de que provêm.
É caso para dizer que a actividade literária obrigou a língua portuguesa a expandir os seus tentáculos para poder segurar, coser e incorporar o tecido social e cultural moçambicano.
Inicialmente, pode ter havido uma mera substituição de palavras em português pelas suas correspondentes nas línguas locais. Foram traduzidos e ajustados provérbios e expressões idiomáticas em changana, ronga, macua, etc., e nessa interacção linguística estas línguas investem no português (falado ou escrito) um pouco da sua estrutura gramatical. Nesse sentido, vários estudiosos concordam que as línguas bantas contribuem para o surgimento de uma linguagem da literatura moçambicana em língua portuguesa.
E então onde eu me coloco nisto tudo? Aprendiz que eu sou, roubei de todos eles. Na altura o Mia Couto teve uma maior importância por tudo aquilo que ele representou na ficção literária moçambicana, em particular, e na língua portuguesa de um modo geral.
Transcrevo aqui um testemunho do Mia Couto, falando do seu livro Vozes Anoitecidas:
O que eu tentei fazer neste livro foi, sobretudo, a invenção de uma linguagem. A proposta contida em Vozes Anoitecidas é a de uma maneira moçambicana de contar histórias moçambicanas, usando a língua portuguesa. Mais do que os temas interessou-me fixar algumas das transformações que a língua portuguesa tem vindo a sofrer em Moçambique. Não considerei estas transformações como exotismos ou desvios mas como sinais da emergência de uma cultura que se apropriou de uma língua e se vai moldando para que dela se possa servir inteiramente.
Porque é de referir que o encontro entre línguas é que opera as transformações e a respectiva apropriação. Por exemplo, tirando algumas das formulações criativas na obra do Mia Couto, existem muitas expressões e palavras e situações linguísticas que são genuinamente do imaginário colectivo.
Por exemplo, no lugar de armário eu cresci a dizer arrumário, porque de facto esta peça de mobília serve para arrumar utensílios, portanto, nada que ver com a origem da palavra. Nestes casos, as transformações e a apropriação têm como base a compreensão e significação dos processos socioculturais e históricos que perpassam a língua viva, através das relações inter-discursivas e interlinguísticas.
Outro exemplo: a roupa esquecida no estendal ou qualquer outro objecto esquecido no quintal diz-se que “dormiu lá fora”. Por isso, estas novas lógicas introduzidas na língua portuguesa em Moçambique criam por si só, a graça verbal a que se refere Manoel de Barros em relação às formulações do Guimarães Rosa, quando diz: “Passarinho parou de cantar/ Essa é apenas uma informação./ Passarinho desapareceu de cantar. /Esse é um verso de J. G. Rosa./ Desapareceu de cantar é uma graça verbal./ Poesia é uma graça verbal.”
Então podia dizer armário é apenas uma informação e arrumário é uma graça verbal, tal como a bicicleta que dorme no quintal. Mas estas graças verbais que me são familiares e legítimas, porque as pratiquei e pratico, e muitas das vezes as nego e recalco motivado pela norma que as considera erro, são um autêntico desperdício. É preciso reconhecer que a consciência linguística dos falantes de uma determinada língua, segundo Bakhtin, “nada tem a ver com o sistema abstrato de formas normativas”, mas sim com a linguagem enquanto “conjunto dos contextos possíveis de uso de cada forma particular”.
E foi assim que eu tive de aprender a dizer as minhas karinganas na língua portuguesa, porque como já tinha dito Craveirinha: “Este jeito/ de contar as nossas coisas/ à maneira simples das profecias/ – karingana ua karingana -/ é que faz o poeta sentir-se/ gente.”
(texto escrito com o acordo ortográfico anterior a 1990, em uso em Moçambique. Inicialmente publicado na edição de 5 de maio de 2021 da revista Latitude, do Ministério da Educação de Portugal)