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É não temer as gramáticas, nem pertencer a pátrias

Dia Mundial da Língua Portuguesa

3.9
(9)

Sandra Cosme

Ex-professora da Escola Portuguesa de Moçambique

A Todas as escritoras, que não sabem ler nem escrever.

A Todas as escritoras que têm um livro dentro do coração e nunca ninguém o leu.

A minha avó, não sabia ler nem escrever. Falava. Da forma mais linda e perfeita que se possa imaginar. Cada vez que escolhia pronunciar-se, era, para mim, como se tudo ficasse escrito. Num grande livro, de poucas palavras, onde estas respiravam sem margens ou linhas apertadas. Todas muito bem escritas, sem problemas ortográficos… A minha avó deixou-me muitos livros escritos por ela. Que permanecerão vivos e são dados, de forma imperfeita e involuntária, aos meus filhos. Evoco a minha avó, como poderia evocar a minha Mãe. A minha Mãe também só fez a 4.a classe com o 25 de abril, porque no seu tempo, às meninas pobres… bastava-lhes a terceira classe. As suas palavras também, não sendo muitas, não são um acaso. São poesia.

© Escolusas | 2026

A língua portuguesa evoca as verdadeiras intelectuais que, pelas mais variadas circunstâncias, escolhiam ou escolhem o Poder de não falar como forma de resistência. Como forma de luta e de reivindicação… no mundo dos direitos escassos. O Silêncio. Uma arma invencível.

Evocar a língua portuguesa é ser irmã de todas as que a falam no mundo inteiro e a mantêm viva, alegre, acesa, ardente, arisca, arrebitada, criativa, desobediente e insubmissa. Que a sabem escrever e que não a sabem escrever. As que a lêem e as que não a lêem. As que a usam para sobreviver. As que a usam para lutar. As que gritam com ela. Cantam. As que lhe desobedecem. As que Amam com Ela.

É evocar todos os que, vindos de outros países, a atualizam nas nossas escolas e a renovam… todos aqueles que perguntam: — oi professora? Todos aqueles que, diariamente, nos recordam que as vogais são sons lindos, abertos e que, alguns de nós, teimam em fechar. É evocar todos os que chegam e não A conhecendo, são acarinhados por Ela, por nós.

Evocar todos aqueles que a escrevem, mal, bem, assim assim…

A língua portuguesa está viva e de saúde, porque, com Ela, recebemos o Outro e partimos com Ela a acompanhar-nos. A proteger-nos. A abraçar-nos.

Evocar a Língua Portuguesa é evocar a verdadeira liberdade onde cabe tanta gente que a atualiza, de maneiras tão próprias e legítimas. Evocar a língua portuguesa é dizer não às amarras, a fronteiras. É não temer as gramáticas, nem pertencer a pátrias…

Agora, que é dia da língua portuguesa, vamos jobar…  playar… sentir e des sentir… a língua portuguesa que, para mim, é apátrida. Não tem fronteiras. Não tem reis, não tem rainhas… não tem senhores… nem tem amos.

VIVA A LÍNGUA PORTUGUESA



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Redação Escolusas
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