
ECOS no seu e-mail | Novidades do Escolusas
Gratuito

Gratuito

Dinora Ferreira oferece novos relatos da sua prolongada vivência em Díli, a capital de todas as cores.

As distâncias no país não se medem pelos quilómetros mas sim pelo estado das estradas. Por exemplo, para ir de Díli a Baucau são 100 kms. Nunca demoramos menos de quatro horas, isto se não for na época das chuvas em que é comum haver desabamento de estradas.
Uma das viagens que mais guardo na memória foi aquela que fizemos até Laclubar e Soibada, duas povoações de muito difícil acesso, conhecidas pela marca da passagem dos portugueses por esta zona. A viagem foi muito dura e conduziu-nos a um Timor profundo. As estradas moeram-nos os corpos. O que os nossos olhos viram esmagou-nos a alma. Atravessámos lugarejos onde, acreditem, se vive pior do que na Idade Média. Homens e mulheres com caras e corpos envelhecidos, acocorados à porta de palhotas mal-amanhadas, rodeadas de cães escanzelados… Crianças andrajosas, sujas e famintas, muitas crianças sempre, algumas de colo… À nossa passagem, acenavam de longe com sorrisos rasgados, como se tivessem razões para sorrir da vida, e nós, com o coração apertado, perguntávamos “Como é isto possível?”

O caminho até Soibada é tão mau que é difícil de descrever, mas valeu a pena sobretudo pela visita ao que resta de uma antiga escola e internato construído pelos Jesuítas no princípio do século XX e onde estudaram os grandes homens deste país, desde Xanana Gusmão até José Ramos Horta. Todo o edifício é uma pérola! O passado parece sussurrar-nos através das paredes de um empreendimento que custa a acreditar que tenha sido construído há mais de um século num lugar tão recôndito e de tão difícil acesso. Desde a piscina aos campos de basquete e de futebol; os dormitórios distribuídos ao longo de intermináveis corredores, o refeitório, as grandes cozinhas com lavandaria e forno para o pão. É tudo fabuloso!
A majestosa igreja, cujo sino, mandado fazer em Paris em 1904 e que nunca foi pendurado no alto da torre por ser demasiado pesado, é ainda hoje local de culto para a comunidade da aldeia. Como a nossa visita ocorreu a um domingo, cruzámo-nos com os fiéis, vestidos e calçados a rigor, e este continua a ser um dos aspectos que mais me comove em Timor, a forma como as pessoas distinguem, pela indumentária, os diferentes momentos da sua vida. Até os mais pobres têm o vestido ou fato de domingo que usam com uma enorme dignidade para visitarem a casa do Senhor.
No final da missa, acabámos por ser recebidos pelo padre e pelo chefe de Suco (o nosso presidente da junta). Foi um momento único… Ouvimos histórias extraordinárias da época em que tudo parecia funcionar segundo uma ordem que todos aceitavam sem questionar.
Antes de nos despedirmos, agradecidos, fotografámos o mais que pudemos, inclusive o triste sino que há mais de um século jaz, silencioso, no jardim que ladeia a igreja.
São muitas as recordações e muito vivas ainda. Podia contar mais coisas, outras coisas, mas este texto exige um ponto final. Termino, dizendo que Timor-Leste, apesar de todas as contrariedades, é um lugar de encantamento que nos marca profundamente, não nos deixa esquecer, obriga-nos a rever por dentro. O que não é pouca coisa.