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Adaptação ao país “leve leve“ foi “pesada pesada“

Sara Silva
Professora na Escola Portuguesa de Díli

4.3
(8)
Professora na Escola Portuguesa de Díli (Timor-Leste)

Grupo disciplinar: Matemática e Ciências Naturais

Escolas

  • Escola Portuguesa de São Tomé e Príncipe (2024/2025)
  • Escola Portuguesa de Díli (Timor-Leste (2025/2026)

Naturalidade: 1999, Leiria (Portugal)

Formação académica: Mestrado de Ensino do 1.º CEB e de Matemática e Ciências do 2.º CEB


A primeira vez

Em agosto de 2024 recebi um telefonema. Do outro lado da linha estava um dos subdiretores da Escola Portuguesa de São Tomé e Príncipe para me informar de que tinha sido colocada na vaga do grupo de Matemática e Ciências Naturais e que tinha apenas 48 horas para aceitar a oferta. Fiquei em êxtase.

No início tudo era novo: o continente, o país, a cultura, a profissão, o clima, a gastronomia, as pessoas. A minha ida para o país que vive sob o lema leve leve apresentou-me um conjunto de situações esperadas, mas não devidamente pensadas aquando do processo de mudança, que eram totalmente novas para mim, como por exemplo viver sozinha pela primeira vez. Todo o meu percurso escolar e académico foi feito na minha cidade Natal, Leiria, por isso nunca tinha experienciado viver fora da casa dos meus pais, excetuando dois meses de voluntariado que fiz em Itália de março a maio de 2024. Eu não sabia o que era viver sozinha: cozinhar quase todos os dias; lavar, estender, apanhar e dobrar roupa todas as semanas; partilhar a casa com outras pessoas. Não sabia o que era passar fins de semana a fio longe da minha família num continente novo, num país novo, numa cultura nova, num ritmo de vida novo. Tudo era novo.

Completa novidade também foi viver, pela primeira vez, fora da Europa. Já tinha ouvido falar no «bafo» que caracteriza a chegada à ilha quando a porta do avião se abre e pomos um pé fora do «pássaro gigante», mas não estava preparada para aquele calor. Conhecia o conceito de clima tropical, mas não a realidade de viver nele, e só em São Tomé é que percebi o que isto significava no corpo e no quotidiano. O calor e a humidade drenavam-me a energia e, por isso, os primeiros meses foram bastante duros. Estar sozinha num país cuja cultura me era distante e desconhecida também me fez sentir retraída, grandemente por ser uma mulher «branca» e ouvir isso todos os dias, sempre que me deslocava na cidade e fora dela. Além disso, acrescia a preocupação inicial com a utilização das águas canalizadas na vida diária, os mosquitos, os alimentos mal lavados (principalmente saladas), o gelo nas bebidas, entre outros aspetos.


Chegar a São Tomé foi cair de paraquedas num país que está parado no tempo e que poderá ser uma amostra atual de como os meus antepassados viveram em Portugal há mais de 50 anos.


A vida em São Tomé era muito diferente daquilo que estava habituada a ver e a viver, por isso os primeiros meses foram passados a aprender a lidar com os vários estímulos diários, tais como: o cheiro a lixo queimado; os cães muito mal tratados e cheios de doenças, como a sarna; a pobreza à frente dos nossos olhos; os montes de lixo espalhados por todos cantos; as pessoas que não têm acesso à saúde; a falta de higiene; as motas; os assobios; os piropos; os comentários sexuais. Chegar a São Tomé foi cair de paraquedas num país que está parado no tempo e que poderá ser uma amostra atual de como os meus antepassados viveram em Portugal há mais de 50 anos. Uma parte do país vive sem acesso à eletricidade e à água canalizada. Contudo, e por ser uma ilha muito fértil, este é um povo que não passa fome, pois há muita fruta e muito peixe.

O processo de adaptação foi moroso, consequência do choque cultural. São Tomé e Príncipe é conhecido como o país do leve leve, o que nos levava a dizer, em tom de brincadeira entre nós, que viver naquele país era tudo menos leve leve, mas sim «pesado pesado», principalmente para quem vinha de um contexto europeu.

Lecionar pela primeira vez foi o pano de fundo desta experiência. Em setembro de 2024, com apenas 24 anos, mudei-me para o continente africano para lecionar pela primeira vez. Nesse ano letivo, fui, também, diretora de turma pela primeira vez. A única experiência de dar aulas que tivera foi no mestrado e mesmo essa foi irrealista, uma vez que tudo o que se vive em sala de aula, enquanto professores, não nos é explicado durante a formação académica. Cada atuação no terreno, enquanto estagiária, tinha de ser minuciosamente planeada e estudada. A partir do momento em que me lançaram aos «lobos», percebi que não havia tempo para planificar. Tudo o que aprendi no mestrado pouco me serviu, porque de um dia para o outro tinha de planificar, literalmente, para dois níveis de ensino (quatro turmas, sendo três do quinto ano e uma do sexto) e para uma disciplina de oferta complementar a outras duas turmas do primeiro ciclo. E onde é que estava o tempo? Não estava! A vida de estagiária tinha acabado e pude, finalmente, perceber a verdadeira dinâmica de se ser professor a full time. Ser professor não é fácil em qualquer circunstância, mas estar a uma distância significativa do meu país e da minha família não facilitou a tarefa.

Aos pontos anteriores, falta acrescentar o que me deslumbrou assim que saí do aeroporto. Como portuguesa, estou habituada a ver laranjeiras, limoeiros, macieiras, oliveiras, azinheiras, sobreiros, pinheiros, etc., e quando cheguei a África deparei-me com outro cenário. Sendo eu uma pessoa que se deslumbra muito facilmente, seria mentira se dissesse que não fiquei espantada a apreciar os mamoeiros, as mangueiras, as bananeiras, os coqueiros, os cajueiros, os cacaueiros, os cafezeiros, e toda a flora tropical à qual não estava familiarizada. Era tentador não tirar fotos a tudo e ficar uns minutos a observar todas estas árvores magnificentes. Os sons eram novos, principalmente o chilrear dos pássaros e a sua força bruta a bater as asas. As aves de rapina sobrevoavam-nos com muita frequência e esse sempre foi motivo para parar e para as contemplar.

Sonhos e receios na bagagem

Receios: ser professora e diretora de turma pela primeira vez.

Havia uma série de perguntas que colocava e de pensamentos que me envolviam: — E agora? Vou ter de lidar com encarregados de educação. O mestrado não me ensinou nada disto. Não estou preparada. O que vou fazer com os alunos nos primeiros dias? Não tenho tempo para planificar. Como se prepara uma reunião? Que papéis são precisos? Onde é que vou buscar esses papéis? Como se mexe no INOVAR?

Hoje a Sara do futuro diria à Sara do passado: —Eiaaa, calma, leve leve, tudo se faz, a escola está cheia de professores com muitos anos de carreira e que estão disponíveis para ajudar no que for preciso. Não é preciso um quarto de toda essa preocupação.


Quando se chega à docência pela primeira vez, as perguntas são muitas e as respostas, por vezes, parecem ser poucas, até que tudo começa a fazer sentido e a encaixar.


Quando se chega à docência pela primeira vez, as perguntas são muitas e as respostas, por vezes, parecem ser poucas, até que tudo começa a fazer sentido e a encaixar. — Como é que vou mostrar a todos os encarregados de educação (EE) da minha direção de turma que podem confiar no trabalho de uma «menina» com 24 anos que está a lecionar pela primeira vez e que nunca lidou com eles uma única vez? Como é que lhes vou transmitir o meu profissionalismo? E se me puserem à prova? Quero causar uma boa impressão na primeira reunião. Quero que os EE vejam em mim uma professora competente, independentemente de não ter qualquer experiência. Quero que eles confiem em mim, enquanto professora e diretora de turma.

Lidar com os EE foi das tarefas que mais receios me causou. Tinha de mostrar que estava à altura do cargo que me fora atribuído e transmitir confiança ao grupo de EE com mais de 20 anos que eu. Claro que este, a par de outros tantos, foi um desafio que me permitiu crescer muito profissionalmente, não só por tudo o que envolve ser diretora de turma, mas também pela parte comunicativa.

Sonhos. Não me caracterizo como alguém que cultive sonhos antes de seguir para vivências como esta. Prefiro, intencionalmente, que o país em causa me surpreenda e me faça sonhar de olhos abertos. Fui para São Tomé com vontades, mas não com sonhos.

E foi com a vontade de crescer pessoal e profissionalmente que parti para esta jornada transformadora. Queria construir a minha independência, isto é, viver sozinha, criar a minha própria rotina, pôr-me à prova e, sobretudo, lidar com responsabilidades que em Portugal não tinha. Sentia que precisava de tudo isso para crescer e preparar-me para a vida adulta.

Com o passar dos meses, fui sonhando com os olhos abertos. Viver na ilha foi especial e uma parte de mim ficou em São Tomé.

O pior e o melhor

O que correu pior do que esperava: a adaptação ao país, à cultura, ao ritmo da vida de professor… foram os pontos que não correram como esperava. Como disse, os primeiros meses de adaptação não foram fáceis.

O que correu melhor do que esperava: quando me mudei, sabia que ia ser surpreendida pelo país, pelas suas praias, pela sua natureza bruta e virgem, pela sua beleza única, pelas suas paisagens de cortar a respiração, por todos os pores do sol gigantes e encarnados. Não obstante, não tinha quaisquer expectativas quanto às pessoas que se poderiam cruzar comigo, não por não ter vontade de conhecer novas pessoas, mas porque a expectativa podia levar à desilusão. Então, não pensei muito no assunto.

O ponto inesperado na minha jornada foram as grandes amizades que cultivei no meu primeiro ano como docente. Tive a oportunidade de trabalhar com um grupo excelente de professores que se tornaram grandes amigos, com quem comunico frequentemente e que me fazem recordar o ano letivo excecional que passámos na Escola Portuguesa de São Tomé e Príncipe. Dentro da escola éramos um grupo unido, comunicativo, altruísta e com um grande sentido de entreajuda, e fora dela éramos um grupo felizardo de amigos que partilhavam boas histórias, cantavam, dançavam, riam, conviviam, entre outras coisas boas.

Por fim, quero fazer uma ressalva à, igualmente, inesperada e improvável amizade que fiz com a Maria e com o António. Saímos os três de Portugal com o sonho de lecionar em países da CPLP. Era o nosso primeiro ano como professores e fomo-nos encontrar em São Tomé e Príncipe. Ao longo do ano, a nossa amizade foi crescendo e tornando-se mais forte. Todas as adversidades por nós vividas levaram ao robustecimento deste vínculo. Ainda em São Tomé, falávamos em rumar em direção à Ásia, para vivenciar o contexto timorense. Em agosto de 2025 concorremos para a Escola Portuguesa de Díli e hoje partilhamos casa nesta cidade.

São Tomé e Príncipe uniu estes três desconhecidos e Timor-Leste está a cuidar da bonita amizade gerada.

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Redação Escolusas
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